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Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais, jamais serão pessoas deficientes

 

Por Fátima Borges

 

Sou categoricamente contrária a nomenclatura deficiente, usada por muitos, para definir as Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais, pois qualquer dicionário conceitua deficiente como algo que é falho, está incompleto, imperfeito e deficiência como defeito, falta, falha e insuficiência. Portanto, não é ‘normal’, para qualquer tipo de sociedade, o que não se encontra dentro dos padrões aceitáveis como ‘normal’, não serve, não presta, não é aceito.

Até mesmo na lei que regulamenta a integração das Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais, possui um conceito de deficiência muito discriminador, quando considera que a ‘deficiência é toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado “normal” para o ser humano’. Entretanto, sabemos que o conceito de normalidade é bastante amplo e diversificado, pois o que pode ser normal para alguns, não necessariamente terá que ser normal para outros, tendo em vista a diversidade do ser humano.

A partir dessa oposição, faço o seguinte questionamento: Será que realmente o repúdio preconceituoso e a segregação ‘caridosa’, antes direcionada a esses indivíduos, cederam lugar à ideia de integração plena dessas pessoas na sociedade, nos dias atuais? Será que essa integração já acontece efetivamente, fazendo com que esses indivíduos possam ter seus direitos de cidadãos, como oportunidade real de trabalho, educação e lazer? Sinceramente e infelizmente, acredito que não.

O despreparo e a falta de apoio às famílias que, de repente se vêm convivendo com uma pessoa especial, acabam fazendo com que ocorra uma passividade familiar, sendo muitas vezes justificada por um conformismo distorcido. Chavões como: ‘Não adianta’, ‘Ele é assim mesmo’, ‘cada um com sua cruz’, colaboram para diminuir as potencialidades do sujeito que, se sentindo pouco valorizado, cumpre a profecia que o mundo lhe passou, e começa a considerar que ‘não consegue’, que ‘não adianta’, fechando desta forma o processo de retro alimentação (ato de reforçar, através da informação que notifica o indivíduo, o efeito do comportamento desempenhado por ele, permitindo assim, que uma sequência de ações ou comportamentos possa ser modificada quando desejável ou necessária).

Integrar à sociedade

Durante o período que convivi com esse publico, coordenando o núcleo de cidadania e trabalho da Delegacia Regional do Trabalho no Amazonas (DRT/AM), percebi a presença de sentimentos como dó, comiseração, piedade, como fontes inspiradoras de baixa expectativa de um futuro promissor e pouco investimento. Penso que grande parte deste comportamento, traz à tona, o tamanho da nossa impotência e a real falta de ações afirmativas e projetos que possam, de verdade, contribuir para a integração desses indivíduos à sociedade.

Essa situação, posta em paralelo com as exigências sociais, acaba gerando um movimento contrário a luta, a perseverança, dando lugar ao abandono, a letargia e ao já citado conformismo. No entanto, jamais aceitarei esta determinação que parece ser a verdade instituída: ‘aos mais favorecidos, mais estímulos e mais oportunidades’; aos que apresentam menos recursos intelectuais, os estímulos são diminuídos, o potencial é desprezado ou no mínimo ignorado, negando-lhes o direito de igualdade e oportunidade, além de não lhes oferecer a chance de se sentirem construtores de si mesmo.

Não quero generalizar, mas sabe-se que, estudos psicológicos demonstram que quando o indivíduo é ‘cobrado’, sente-se fortalecido, pois traduz esta exigência como estímulo ao seu potencial, fazendo surgir uma convicção pessoal, proveniente da importância que lhe foi dada. É como se, ao ouvir interpretasse: ‘Se ele está dizendo que posso, que sei, que consigo, é porque posso, sei e consigo’.

Deficiente não!

É através dessa ótica que surge a nossa oposição a nomenclatura ‘deficiente’, utilizada para fazer referência às pessoas Especiais. O que mais contribuiu para esta oposição, foi o resultado de uma pesquisa realizada durante o período que coordenei o núcleo de cidadania da DRT/AM, quando foi possível observar que a maioria desse público concorda que o tratamento de ‘deficiente’, influência diretamente na autoestima desses indivíduos.

Alguns até não se importam em serem tratados por cego, surdo, paraplégico ou excepcional, pois realmente os são, mas isto não os torna insuficiente, improdutivo, como a maioria da sociedade considera.

Penso ser absolutamente necessário oferecer a esta população Especial, maior qualidade e mais seriedade na implementação de projetos relativos a sua integração, pois como bem coloca o psicanalista Winnicott, ‘o caminho do desenvolvimento e da maturidade pessoal segue da dependência à independência, passando da dependência absoluta para a dependência relativa e finalmente para a independência, embora esta nunca seja absoluta’.

Quero acrescentar que, reconheço a existência de casos com grau de comprometimento das funções do indivíduo, bastante elevada, esses não conseguirão atingir o nível de ‘normalidade’ estabelecido pela sociedade. Sei também que não é fácil, e o quanto muitas vezes o desânimo toma conta das famílias desses indivíduos, mas, o que quero registrar é que sempre existe um potencial a ser respeitado e considerado, e portanto deve ser desenvolvido.

 

* Dra. Fátima Borges – Psicóloga Clínica, Escolar, Organizacional e Comunitária. Formação Psicanalítica e Comportamental

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